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Os velhos valores morais e éticos deveriam continuar atuais. Imprimir Email

Em 7/dezembro/2010 o estudante do quinto ano de educação física, Hamilton Loyola Caires, matou a facadas o seu professor Kássio Vinícius Castro Gomes, de 39 anos.

Ao ser preso no dia seguinte, disse à Polícia Civil de Belo Horizonte que matou o professor do Instituto Metodista Izabela Hendrix porque se sentia perseguido.

Segundo informações não confirmadas, o motivo real do assassinato teria sido sua insatisfação com notas baixas. Colegas afirmam que ele era de difícil convivência. E segundo a Polícia Civil, Caires já havia sido expulso da Faculdade Universo por indisciplina, é muito calado e de personalidade complicada.

O irmão chegou a afirmar à Polícia Militar que Caires é usuário de drogas e que no dia anterior do crime destruiu completamente a casa dele.

O texto a seguir, do ex-professor do Instituto Metodista, Igor Pantuzza Wildmann, está circulando pela internet como um desagravo ao seu ex-colega assassinado.

Por ter se concentrado na deturpação dos valores básicos por parte da área de ensino, deixou o professor Igor de mencionar os seguintes aspectos que contribuem para a banalização e crescente frequência de crimes como estes:

  • A excessiva tolerância da legislação brasileira permite que no pior tipo de crime, o assassinato, o criminoso devidamente identificado, não fique preso, desde que não seja preso em flagrante;
  • Dependendo das posses do assassino, mesmo quando preso em flagrante, ele poderá aguardar o julgamento em liberdade;
  • Mas mesmo quando depois de mais de 10 anos aguardando o julgamento do seu crime, ele é julgado e condenado, ainda pode continuar em liberdade. Como é o caso do jornalista Pimenta das Neves, que matou sua ex-namorada com dois tiros, sendo o segundo na nuca quando ela já estava no chão, agiu com premeditação, na frente de testemunhas e, pasmem, continua em liberdade!
  • Um assassino que tenha agido com a pior crueldade possível, e até feito inúmeros assassinatos, pela tolerante lei brasileira será condenado a 30 anos no máximo. E tendo bom comportamento, em apenas cinco anos (1/6 da pena) poderá usufluir do regime semi-aberto, que lhe permite apenas dormir na prisão, e se quiser, fugir no primeiro dia que sair para trabalhar;
  • Políticos, juristas e senhoras bem intencionadas (mas que nunca dariam abrigo a um menor infrator da Febem) são ávidos em defenderem menor rigor e menos criminosos nas prisões, porém, o que essa gente não tem é o bom senso para considerar que uma coisa é o adolescente de boa índole que comete um deslize qualquer, e outra, são os casos de bandidos natos ou, drogados, ou as duas coisas, como este Caires que matou seu professor, dos quatro rapazes que agrediram as pessoas na Avenida Paulista, e de vários outros, todos com muitos antecedentes de agressões, brigas, ameças etc.;
  • Pessoas com antecedentes de crimes, mesmo pequenos, não devem ser tratadas com tolerância, porque senão isso será um grande estimulo para que elas continuem a provocar e a agredir inocentes, até que, pela tolerância com que são julgados pelas nossas leis, partem para um assassinato;
  • No começo de 2010 havia 474 mil presos no Brasil. Porém, o número de vagas era de 295 mil (!!) E deste total de presos, 153 mil eram preso provisórios, aguardando para serem julgados. Mas claro que dificilmente há entre estes gente de dinheiro, pois quem pode pagar um advogado caro sempre vai aguardar seu julgamento em liberdade. Ou até, como no no caso do Pimente Neves, vai continuar em liberdade mesmo depois de condenado!
  • Já nos Estados Unidos, onde a lei é rígida, a tolerância é zero e mesmo os delitos pequenos — dirigir embriagado, ameaçar o professor, uso de drogas, agressão física — são julgados com penas de prisão, há cerca de 2,3 milhões nas prisões e mais 5,1 milhões em liberdade condicional, devido a maior rigidez das leis americanas e a intolerância da sociedade americana nos casos de reincidencias, assim, com uma população apenas 50% maior que a do Brasil, os EUA tem quase cinco vezes mais pessoas nas prisões. Este artigo é bem esclarecedor:  Sistema prisional norte-americano sofre com saturação
O sistema prisional deles está saturado, sim, mas, como vemos nos filmes americanos atuais, mesmo em bairros pobres as casas nos EUA não tem muros nem grades, apenas um gramado na frente, enquanto aqui no Brasil o nosso sistema carcerário também está saturado, mas não por manter atrás das grades todos os que deveriam, mas por falta de vagas, falta de condições mínimas de alojamento, alimentação, atividades produtivas, e ao contrário dos EUA, aqui, até em favelas há casas com grades nas janelas. 
 
DESAGRAVO DO PROF. IGOR AO ASSASSINATO DO PROF. KÁSSIO VINICIUS.

Amigos,
Embora há muito tempo tenho me desligado daquela instituição, como ex-professor do Instituto Metodista Izabela Hendrix, fiquei profundamente consternado com o caso do universitário que, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca no coração de seu professor, na cantina, em pleno horário escolar, à frente de todos.
Escrevi um desagravo e, em minha opinião, a pérfida ilusão vendida a muitos alunos despreparados, sobre a escola (e a vida) como lugares supostamente cheios de direitos e pobres em deveres, acaba por contribuir para ambientes propensos à violência moral e física.
Espero que, se concordarem com os termos, repassem adiante, sem moderação. A divulgação é livre.



J’ACUSE !!! (Eu acuso !) - Um Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes

« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice. (Émile Zola)
"Meu dever é falar, não quero ser cúmplice". (Émile Zola)


Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio.
Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).
A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.
O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal a o autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é
fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário.

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Última atualização em Ter, 04 de Janeiro de 2011 19:02